Nos textos, vejo: quem tiver olhos veja.
Nas vozes, ouço: quem tiver ouvidos ouça.
De minha parte, vejo, ouço e ainda vislumbro, pelo potente jorro de tantos pontos de exclamação, o ordenamento: quem tiver habilidades suficientes dê cambalhotas.
É isso que absorvo ao me deparar com a notícia de que em Aiuaba é o ex-prefeito quem de fato manda, inclusive determinando o valor dos proventos do atual gestor. As entrelinhas dessa notícia, seja no papel ou em áudio, estão encharcadas de espanto só comparado àquele que possivelmente ocorreu quando o homem inventou o fogo.
Como acesso de tempos em tempos um indispensável atlas, a notícia não me causa tanta surpresa, tanta admiração.
Colho na página 1997 que a referida praga (de um ex-mandatário insistir em exercer poder que já não é mais seu) ameaçou se estabelecer no asteroide chamado Irapoaca.
Irapoaca, para quem ainda não sabe, é um asteroide a exemplo de infinitos outros do nosso Sistema Solar, onde o poder (principalmente o Executivo) é disputado na ponta da faca e dos cascos.
O atlas revela que Irapoaca é um reino que não é desse mundo. A realeza ali tem prazo de validade: quatro anos. E é eleita pelo povo, tal como nas democracias.
Na página 1996 está escrito que o então rei de Irapoaca conseguiu dar continuidade ao seu projeto de poder, elegendo pessoa considerada por ele como da mais alta confiança e competência, principalmente por se tratar de um parente em grau próximo, portanto, com rajas da mesma cor no sangue real.
O então rei estava crente, diz o atlas, que continuaria executando o seu poder de mandar e desmandar na administração dos destinos de Irapoaca, embora o fazendo no permissivo mundo das sombras.
A nomeação da ex-rainha para exercer o cargo de ministra da Casa Social foi entendida por todos como natural. O que causou assombro foi a demissão da ministra, poucos meses depois.
A demissão da esposa do ex-rei registrou o corte da aliança fortemente construída pelos laços sanguíneos.
Veio a público posteriormente o motivo da quebra do contrato: o ex-rei pretendia mandar mais do que o então atual rei.
Diante dessa revelação do atlas, o bom senso impõe que se deve parar com a encenação desse espanto e com essa enxurrada de pontos de exclamação diante de uma notícia que diz de fato não muito publicizado, mas ao alcance de qualquer pessoa que queira usar bem os olhos e os ouvidos.
Ao atingir esse resultado, a pessoa não precisa, mesmo que tenha habilidade favorável, comemorar o feito dando alguns saltos triplos encorpados.
Aiuaba, não custa lembrar, não é muito distante de nós.
E Irapoaca é logo ali, à distância de uma esticada de beiço.
Francisco Rodrigues
Servidor Público
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