sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Artigo: Para Todos

Somei os algarismos do número 2014 e adicionei o resultado a audições de algumas mensagens em que os falantes dirigem-se a TODOS e a TODAS. Conquistei a certeza de que vamos ter em 2014 um ano bem diferente de 2013. A começar pela numerologia.

Diferente para melhor, é claro.

As melhorias virão como que por magia.

Quem usa do expediente de dizer que o seu discurso não é apenas para TODOS, mas sim para TODOS e TODAS, sabe muito bem o que está praticando.

Está exercendo o que alguns chamam de arte e outros chamam de ciência oculta. Pretendem com esse trabalho produzir, através de certos atos e palavras, resultados excepcionais, opostos às leis naturais. Contam para essa empresa com a sigilosa ajuda de espíritos, gênios e demônios.

Mas isso é magia, dirá você, espantado.

Sim, quem usa desse expediente está praticando bruxaria, magia negra.

Os livros didáticos especializados contam que, assim que nasceu, TODOS ganhou de sua mãe, a Dona Gramática, a distinta classificação de Pronome Indefinido. E TODOS veio logo servir ao mundo, aplicando-se a toda terceira pessoa gramatical, quando esta não tem os contornos nítidos da individualidade. Nesse caso, TODOS assume devotamente o papel vago, impreciso, genérico, dessa terceira pessoa. Isso em todo e qualquer discurso disparado contra um amontoado de gente, quando não é possível, nem necessário, pronunciar cada um dos nomes dos ouvintes.

Sabe-se que geralmente em um discurso a parte mais vaga, imprecisa e genérica é o sexo de quem está a ouvir, querendo ou não.

Portanto, TODOS é um imenso indicador que vale por dois, vez que, a um só tempo, aponta homens e mulheres. TODOS vem a ser, também, um toldo que recolhe em sua generosa sombra, indistinta e eficazmente, seres masculinos e femininos.

Entendo que todos os falantes que enaltecem o gênero feminino quando lançam o “para todos e todas” acham que com isso estão diminuindo as desigualdades entre mulheres e homens, pretas e brancos, analfabetas e letrados, amigas e inimigos do partido político governante, vermelhos e verdes, laranjas e azuis. Os resultados práticos apontam que na verdade isso não acontece. Os falantes acabam simplesmente atingindo suas interlocutoras com diferentes graus de demagogia.

Só por exercício, imaginemos que a presidente Dilma mandou uma retroescavadeira para um município. Junto com a máquina veio um texto em que a presidente diz, bem ao discutível estilo dela, que se tratava de um presente para todos e todas. (o sublinhado é dela, presidente.) Perguntemo-nos: as obras produzidas pela retroescavadeira serão de mais valia para as mulheres, ou, ainda, as obras só poderão ser usufruídas pelo gênero feminino porque a presidente sublinhou que a bendita máquina era para todos e todas?

Mas não são apenas os políticos profissionais que gostam de jorrar demagogia. No dizer dos especialistas, todos somos políticos. E é bom que sejamos mesmo, para que possamos aperfeiçoar as relações humanas e as dos ditos humanos com o Universo, empunhando bandeiras necessárias como, por exemplo, a da solidariedade.

Assim, politicamente, muitos usam o complemento PARA TODAS porque acreditam que a demagogia conquistará uma legião expressiva de adeptas à sua ideologia, que, muitas vezes, não passa de seus mais mesquinhos interesses pessoais. Outros usam, impensadamente, o complemento pelo simples prazer de imitar o que acham o máximo.

Como é? Você já ouviu reitores de universidades, vereadores, prefeitos, juízes de Direito, governadores, a presidente, sacerdotes, o Papa e o Dalai Lama destacando que seus discursos são para todos e TODAS?

A Magnificências, Excelências, Reverendíssimas e Santidades dispensamos todo o tratamento respeitoso que lhes é devido. Mas não venham, senhores e senhoras, por mero capricho demagógico e para parecer incansáveis defensores da inclusão das mulheres na sociedade, promover inovações que nada de bom acrescentam, desprezando o que a Dona Gramática, por lei, edificou.

Francisco Rodrigues
Servidor Público

Nenhum comentário: