Iguatu. Nos últimos dias, é crescente a pressão de
prefeitos e produtores rurais mediante a possibilidade de um segundo ano
consecutivo de seca, no Ceará. As vítimas da estiagem exigem ações
governamentais mais rápidas e efetivas. O setor pecuário já registra
elevada perda. O desabastecimento de água para a população e para
animais tende a agravar-se. No campo, os pequenos e médios criadores já
não têm mais alternativa de alimentação para o rebanho. As reservas
estão se acabando.
O
grito de socorro chegou com maior intensidade às portas do governo do
Estado. "Os municípios precisam de ações mais concretas e urgentes",
defendeu o prefeito do município de Iguatu, Aderilo Alcântara. "A
situação é crítica e infelizmente tende a se agravar se não chover logo.
As ações são lentas e, a cada seca, se repetem com carro-pipa e a venda
de milho pela Conab, mas que é insuficiente".
A
presidente da Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), Adriana
Pinheiro, observou que todas as segundas-feiras, desde 2012, o Comitê
Integrado de Combate à Seca, limita-se a discutir ações e projetos já
existentes, tais como o abastecimento por carro-pipa, recuperação de
poços profundos e distribuição de milho para o rebanho.
Ele
defende ampliar o debate e colocar novas ações em prática. "Precisamos
trazer novas tecnologias, voltadas para a melhoria da qualidade da água
distribuída, eficiência dos sistemas de abastecimento e de irrigação".
Aderilo
Alcântara crítica justamente a falta de ações tecnológicas para o
campo. "Os pequenos e médios produtores rurais não têm acesso à
tecnologia e a cada seca as ações de assistência são repetidas",
observa. "Não há sistema de irrigação, os existentes são inadequados.
Uma coisa simples como análise de solo, não é feita porque a Ematerce e
outros órgãos não oferecem o serviço aos agricultores".
Conforme a
presidente da Aprece, os prefeitos reclamam da demora na liberação dos
recursos emergenciais, do atraso de projetos estruturantes de
abastecimento de água, no excesso de burocracia, repasse insuficiente no
volume de milho subsidiado pelo governo federal por meio do programa
Venda Balcão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
"É
preciso o governo apressar a liberação de recursos financeiros dos
projetos São José 3 e Água para Todos", diz Adriana Pinheiro. Ela se
refere aos investimentos considerados insuficientes pelo governo
estadual em programas e projetos de convivência com o semiárido, por
exemplo, o Programa de Práticas Agrícolas da Secretaria de
Desenvolvimento Agrário (SDA). O orçamento para 2013 é apenas de R$ 1,2
milhão.
Demora
O prefeito de Iguatu,
Aderilo Alcântara, lembrou que no ano passado, a Prefeitura encaminhou
projetos para os governos estadual e federal, solicitando a perfuração
de poços profundos. "Até agora, não obtivemos nenhuma resposta", disse.
"E desde o ano passado que aguardamos a vinda de um carro-pipa, que não
chega".
A complexidade do problema da seca fica evidente no
município de Jaguaribara, onde está localizado o Açude Castanhão, o
maior do Estado, que fornece água para perenização do Baixo Jaguaribe e
até para o abastecimento da Capital cearense.
Comunidades
localizadas a 3 Km do reservatório são abastecidas, entretanto, por
carro-pipa. "Isso é uma contradição e a burocracia impede que a água
chegue para outras comunidades nos arredores do açude", diz o prefeito,
Francini Guedes. "Nesse momento de crise, as coisas deveriam ser
simplificadas, mas para se conseguir uma adutora há uma dificuldade
enorme?".
O prefeito de Crateús, Carlos Felipe Saraiva, é
taxativo: "As ações são tímidas, para não dizer iníquas diante da
calamidade da situação. Os municípios estão entregues à própria sorte".
O
prefeito de Sobral, Veveu Arruda, evita críticas às ações
governamentais para a seca e diverge da maioria dos gestores, preferindo
ressaltar que, em parceria com a Secretaria de Recursos Hídricos do
Estado, foram perfurados e instalados 43 poços profundos, construídas
adutoras, mais de 1.500 cisternas de placas, 92 de enxurradas e 42
barragens subterrâneas como suporte hídrico para os pequenos produtores
desenvolverem os seus quintais produtivos e projetos Mandalas. "Os
governos do Estado e federal têm tentado atender os municípios", afirma.
Quadro crítico
O
secretário de Desenvolvimento Agrário do Ceará, Nelson Martins,
reconhece que há problemas burocráticos que acarretam atraso na remessa
de milho e em outras ações. O titular da SDA enfatizou que o Ceará
enfrenta uma das piores secas dos últimos 50 anos. "Ano passado, choveu
apenas 40% da média histórica e neste ano, até agora, está chovendo
apenas a metade do registrado no mesmo período de 2012".
Ele
apresenta uma série de ações: "são mais de 800 caminhões-pipa pelo
Exército e pela Defesa Civil do Estado fornecendo água para as
famílias", destaca. "Já recuperamos e perfuramos mais de 300 poços".
Nelson diz que essas duas ações serão ampliadas. "Ampliamos de quatro
para dez o número de equipamentos para perfuração de poços no Interior",
complementa.
Martins observou que, apesar do esforço da Conab no
Ceará, a quantidade de milho vinda para o Estado é insuficiente para
atender à demanda que a cada mês é crescente. "Infelizmente, há
problemas de burocracia, contratação do frete, que impedem a chegada dos
grãos em quantidade suficiente e com regularidade".
HONÓRIO BARBOSA/ SUCURSAIS
REPÓRTERES E COLABORADORES
Diário do Nordeste
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