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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Ceará tem média de 30 novos casos de câncer em crianças por mês

O ataque é silencioso, muitas vezes identificado quando as consequências já afetam o corpo, seja pequeno ou grande. É a doença mais cruel do século, dizem muitos. E esse adjetivo pesa ainda mais quando o câncer, de diversos tipos, acomete as crianças e os adolescentes. A estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) é que cerca de 360 novos casos sejam diagnosticados em crianças e adolescentes no Ceará, em 2020, uma média de 30 por mês. O número alerta para a importância do diagnóstico precoce, ao qual se volta o Dia Internacional de Luta Contra o Câncer na Infância, lembrado neste 15 de fevereiro.

O quantitativo anual estimado de novos casos projetados pelo Inca é o mesmo para este ano e para os dois seguintes, de modo que ao fim do triênio 2020-2022, pelo menos 1.080 cearenses de zero a 19 anos devem ter a doença confirmada, sendo 50% deles de cada gênero. No Brasil, o cenário muda: para cada ano do triênio, estima-se que serão identificados 4.310 casos novos entre meninos e 4.150 entre meninas.

Em Maria Eduarda, hoje com 9 anos, a Leucemia Linfoide Aguda (LLA), câncer considerado o mais comum entre crianças e adolescentes, teve como primeiro sinal uma febre durante as férias na casa da avó, em 2016 - ano em que obtiveram o diagnóstico no Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), em Fortaleza, e a luta da criança junto à mãe, Karoline Alves, 36, se iniciou. "O tratamento durou até 2018, quando as quimioterapias pararam de dar resultado, não serviam mais de nada. Foi quando entramos na Justiça e conseguimos uma medicação nova liberada pela Anvisa. Ela foi uma das primeiras do Ceará a tomar", relembra Karol.

A substância foi responsável por "limpar" a medula de Duda, requisito para a pequena tentar a realização de um transplante em São Paulo, do qual o pai dela foi o doador. "Foram três anos de luta, e ela foi guerreira. Desenvolveu diabetes, teve trombose no braço, mas seguiu. A chance de ela transplantar e a doença voltar existia, mas era um risco que a gente tinha que correr. Em dezembro de 2019, fez um ano. E ela tá bem, curada. Vai voltar a estudar, agora, porque, com 9 anos de idade, ela ainda não teve essa oportunidade. A Duda nasceu de novo, é um milagre que a gente tem", comemora a mãe.

Para Karol, a "doença agressiva e traiçoeira" perdeu forças graças à rapidez do diagnóstico. "Quando é precoce, a criança pode ser salva. Antes, eu não tinha essa consciência, mas é muito importante fazer um check-up nos nossos filhos, um hemograma com frequência. Se a criança tiver febre, ir ao médico, não se medicar em casa. É assim que a criança ou o adolescente vai ter mais chances de ser curado, a gente precisa dar isso a eles", aconselha Karol, que desabou com o diagnóstico de Duda, mas se reergueu para ajudar a filha e outras famílias que enfrentam batalhas contra a doença.

Cura

A dona de casa Jovelina Sousa, 28, aliás, já encara uma segunda guerra. O filho Pablo, 11, foi diagnosticado com Linfoma de Hodgkin em fevereiro de 2016, após o aparecimento de febre, manchas no corpo, falta de apetite, forte dor de cabeça, fraqueza, apatia, desmaios e dores no estômago - órgão que já "guardava" 29 nódulos, quando a doença foi identificada. Depois de todo o tratamento, a cura veio em julho de 2019. Mas, seis meses depois, o câncer retornou.

"Na primeira vez, tive um choque assustador, mas me contive, porque vi mãezinhas no Lar (Amigos de Jesus, casa de apoio a pacientes e familiares) que tinham o filho com câncer pior do que o do meu filho. Foi quando me encontrei com forças pra prosseguir. Hoje, estou mais fortalecida, porque sei onde tratar e como lidar. Mas não é fácil: a cada dia que vamos ao hospital fazer um exame, tenho medo de uma notícia ruim. Sempre vamos com nervosismo", conta Jovelina.

Além do temor pela saúde de Pablo, a mudança na rotina dos dois, naturais do Município de Monsenhor Tabosa, também desequilibra a mente. "Ele começou a estudar, mas parou quando teve a recaída. Ele é proibido de ir à escola. Pelo tratamento ser longo e não ter ideia de quando vamos voltar pra casa, a gente fica triste. Mas nossos planos não são os mesmos de Deus", diz a mãe do pequeno, atracada na fé divina que, para ela, se sobrepõe a todas as outras.

Segundo o Inca, a taxa de cura para o câncer em crianças chega a cerca de 80%. Apesar disso, a Confederação Nacional das Instituições de Assistência à Criança e ao Adolescente com Câncer (CONIACC) aponta que o carcinoma infantojuvenil é a segunda maior causa de morte na faixa etária entre um a 19 anos, perdendo apenas para fatores externos, como acidentes.

Assistência

No Ceará, o Centro Pediátrico do Câncer (CPC), do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), é a unidade de referência para tratamento da doença. Em média, cerca de 2.500 pacientes são atendidos. De acordo com Nádia Trompieri, coordenadora do Ambulatório de Diagnóstico Precoce do Câncer do HIAS - "criado para analisar casos suspeitos e chegar a um diagnóstico final" -, o número de novos casos tem aumentado mês a mês. As crianças, em geral, chegam enviadas por médicos da Atenção Primária ou Equipes de Saúde da Família, com encaminhamento para confirmar ou não as suspeitas.

"O LLA é o câncer mais comum de todos, corresponde a 40% de todos os cânceres infantis. Têm ainda os tumores renais, ósseos, no Sistema Nervoso Central. Os linfomas também são muito comuns, principalmente o Não-Hodgkin. Mas o câncer infantil responde melhor ao tratamento, tem chance de cura muito maior se for identificado no início: cerca de 70% de todos os casos são curáveis", estima a médica oncologista.

Além do tratamento medicamentoso, da quimioterapia e de cirurgias, métodos mais comuns para tratar a doença na faixa etária de zero a 19 anos, a complementação por meio de outras atividades é considerada importante no processo de cura. "Precisamos de equipe multidisciplinar, com assistente social, psicólogo, enfermagem especializada. Não funciona só com médico. O voluntariado também dá uma enorme ajuda para as crianças, que ficam mais felizes, aderem e aceitam melhor o tratamento. Tem gente que acompanha em brincadeira, fica muito mais fácil", reconhece Nádia.

Em Fortaleza, uma das instituições que ofertam abrigo, alimentação, transporte, atividades de lazer e outros serviços é o Lar Amigos de Jesus, no bairro São João do Tauape, que acolhe, hoje, cerca de 80 pessoas por dia, entre familiares e crianças. O local é presidido pela Irmã Conceição Dias, que resume a importância de um "tratamento humanizado" para o câncer, sobretudo quando acomete crianças.

"Temos projetos sociais com a parte recreativa, de artesanato, palestras, acompanhamento psicológico. Vamos ter Carnaval. No caminho pro hospital, brincamos e dançamos, pra eles não ficarem tristes pelo tratamento. Além dos médicos, nós fazemos isso pra aumentar a autoestima deles, a vontade de viver".

Diário do Nordeste

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