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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Tragédia em Beirute deixa apreensiva comunidade libanesa no Ceará

A explosão na zona portuária de Beirute, capital do Líbano, tem causado repercussão na vida também de cearenses descendentes ou de imigrantes radicados. No Estado, mais de 100 sobrenomes têm como origem o país do Oriente Médio, enquanto a comunidade libanesa no Ceará é formada por cerca de 20 mil pessoas.

Os dados integram o levantamento realizado pelo engenheiro e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Aziz Ary, e foram publicados no livro “Príncipes Da Mente - As famílias libanesas no Ceará”, de 2013.

Descendente de libaneses tanto por parte da família materna como da paterna, ele relata que a tragédia em Beirute “transtornou a mente de todos os libaneses que estão no Ceará e no Brasil”.

Apesar de ter poucos familiares morando no Líbano, diz que tem acompanhado relatos de preocupação vindos de outros descendentes com amigos e parentes que ainda estão no país. “A gente pensa, às vezes, que tudo isso é um pesadelo e se acordar não vai ter ocorrido. Mas infelizmente é verdade”, lamenta.

A explosão da última terça-feira (4) destruiu uma parte significativa de Beirute. Até ontem, havia pelo menos 157 mortos e 5 mil feridos. “Para os libaneses que estão aqui, afeta principalmente o emocional. Famílias que perderam parentes na explosão ou que estão com familiares desaparecidos e não conseguem se comunicar”, exemplifica a internacionalista Karine Garcêz.

Crise

A tragédia deve agravar as crises econômicas e políticas pelas quais o Líbano vem atravessando. Karine Garcêz lembra que, ainda em 2019, eclodiram grandes manifestações - principalmente devido aos altos índices de corrupção.

Além disso, a moeda libanesa vem passando por uma crescente desvalorização, enquanto a Organização das Nações Unidas relatou que mais de 52% da população vive abaixo da linha de pobreza. Cenário que tem sido agravado com a pandemia de Covid-19.

Por conta disso, César Aziz Ary aponta que deve ocorrer um movimento migratório.

“Vai ocorrer o mesmo de quando os meus avós chegaram ao Brasil: os libaneses vão tentar sair de lá”, afirma. Ele cita o Brasil como um dos destinos preferenciais.

“As relações entre os dois países são próximas. Brasileiros não precisam de visto para entrar no Líbano, e vice-versa”, concorda Garcêz. Entre as razões para a proximidade, a extensa comunidade libanesa radicada no Brasil.

Migração

São mais de 5 milhões de libaneses vivendo no Brasil. Se forem somados os descendentes, a comunidade libanesa chega a contabilizar quase 8 milhões de pessoas.

O número é superior a da população do Líbano, que é de 6,8 milhões. No Ceará, são quase 20 mil libaneses e descendentes radicados.

Entre eles, estão o cantor Fagner e o senador Tasso Jereissati, por exemplo. O número, contudo, ainda é pequeno se comparado a outros estados brasileiros. A comunidade em São Paulo, por exemplo, supera 3 milhões.

A chegada dos libaneses ao Ceará ocorreu em processo migratório entre o fim do século XIX e o começo do século XX. Assim como no resto do Brasil, eles vieram para trabalhar em período posterior à abolição da escravatura.

“Começaram como mascates, foram vendendo mercadorias de porta em porta. Quando começaram a conseguir dinheiro, foram construindo lojas, e algumas são hoje grandes conglomerados comerciais”, destaca César Aziz Ary.

A maioria dos libaneses que chegaram ao Ceará, completa ele, tinha morado primeiro no Piauí, Maranhão ou Pará. Ao realizar viagens para vender produtos, acabaram conhecendo o Estado. “Muitos preferiram a terra, a paisagem, o clima, e ficaram”, finaliza ele.

Ligação histórica

Foram dos portos de Beirute que os libaneses começaram a embarcar para o Brasil em torno de 1870. Também foi nesta cidade que Dom Pedro II desembarcou no início de sua viagem pela chamada Terra Santa, em 1876, passando por Jerusalém e Damasco. Na época, o Líbano era parte do território do país vizinho, a Síria.

Refugiados

A explosão no Líbano também afetou as vítimas da crise migratória. O país abriga entre 800 mil a 900 mil refugiados palestinos e tem quase 2 milhões de sírios. A situação dessas pessoas, que já era precária e de extrema pobreza, também foi gravemente afetada pela tragédia de terça-feira (4) .

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