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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Ceará perde 4,5 vezes mais postos de trabalho formais com pandemia

Sob influência da pandemia do novo coronavírus, o mercado de trabalho no Ceará ampliou o ritmo de perda de postos de trabalho. Entre janeiro e abril deste ano, foram encerrados 25,6 mil empregos no Estado - volume 4,5 vezes maior que no igual período do ano passado, quando haviam sido fechadas 5,6 mil vagas formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia. Conforme a previsão do professor de Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Aécio Alves de Oliveira, a estimativa é que o saldo negativo no Estado deve demorar pelo menos três meses após a retomada das atividades para começar a ser revertido.

Ele avalia que o retorno ao trabalho se dará em um ambiente de muitas incertezas. "As estatísticas positivas não vão aparecer de imediato. Para pausar, é rápido, mas para voltar, é gradativo. E a economia não tem condições de repor todas essas vagas de uma vez. No próximo trimestre, talvez já comecemos a ver algum tipo de melhora nesse saldo", projeta o professor.

Para Oliveira, a pandemia é realmente o principal motivo para o expressivo aumento das demissões. Em janeiro e fevereiro, o Ceará apresentou saldo positivo de empregos, ou seja, a quantidade de contratações superou as demissões, tendência que só se reverteu em março e cresceu exponencialmente em abril, primeiro mês inteiro com a atividade econômica restrita aos serviços essenciais. "Isso indica de forma bem clara o efeito da pandemia", ressalta.

Empregos preservados

O professor ainda destaca o papel do Estado para a manutenção dos empregos e renda das famílias. Segundo o Caged, mais de 277 mil empregos foram preservados a partir do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e Renda, que permite a redução proporcional de jornada e salário dos trabalhadores ou suspensão de contratos.

"Se não fosse essa MP 936, esses 277 mil trabalhadores estariam na conta dos demitidos. O Estado é fundamental nesses momentos, apesar de ainda ter feito pouco, porque o mercado não resolve. A solução que o mercado indicaria seria simplesmente demitir", avalia o docente.

Em abril, a indústria foi o setor que mais fechou postos de trabalho no Ceará, apresentando saldo negativo de 10,6 mil empregos com carteira assinada. Em seguida, as maiores perdas aparecem nos setores de serviços (-8,8 mil), comércio (-7 mil) e construção civil (-3,1 mil). Mesmo sendo considerados essenciais, empresas dos setores de agricultura e pecuária também reduziram o quadro de pessoal no mês passado, resultando em um saldo negativo de 195 vagas formais no Estado.

Perspectivas

Erle Mesquita, coordenador de Estudo e Análise de Mercado de Trabalho do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), acredita não ser possível prever quando o mercado de trabalho deverá se recompor após a pandemia. Segundo ele, serão necessárias políticas do trabalho e união entre as diferentes instâncias de poderes e gestores para recuperar os empregos perdidos e gerar novos.

"O grande problema é a alta rotatividade do mercado. Com a pandemia, você estancou as admissões e deixou de contratar. Quem ficou no mercado de trabalho teve de se submeter às iniciativas que foram impostas. É uma grande incógnita saber quando o mercado vai se recuperar. Os poderes e os gestores vão ter que realmente pensarem em políticas do trabalho", avalia.

Para Mesquita, o mercado já vinha em um processo de fragilização. "Você tinha um movimento que era necessário por causa dessa onda tecnoló-gica, e a Covid-19 acelerou isso. O Ceará já tinha meio milhão de desempregados antes da crise e, com ela, outros muitos trabalhadores desempregados que não vão conseguir ser realocados. A gente não tem uma perspectiva de recomposição muito facilitada desse mercado, tanto pela situação da economia, como pela queda da renda do trabalho. É um cenário de longa jornada para recomposição", analisa.

De acordo com o coordenador, serão necessárias múltiplas e transversais iniciativas para recuperar os empregos perdidos. "A gente vai precisar ter mecanismos de acesso ao crédito para micros e pequenos empreendedores e de desonerações nas folhas de pagamento, algo que vai ser difícil para os governos por conta da queda da arrecadação neste momento", aponta.

Mesquita destaca que o esforço terá de ser ainda maior por conta da deterioração da legislação trabalhista que vem acontecendo nos últimos anos. "Há uma necessidade de se ter uma força-tarefa muito forte, porque a gente vê uma destruição do Direito Trabalhista. As previsões internacionais são muito ruins e o cenário interno é muito turbulento. Isso tudo tumultua o processo de retomada", lamenta.

Municípios

Segundo dados do Caged, em abril, Fortaleza foi o município com o pior saldo de empregos, com a perda de 15.308 postos de trabalho formais. Em seguida, aparecem Maracanaú (-2 mil), Santa Quitéria (-1.013), Caucaia (-985), Juazeiro do Norte (-787), Maranguape (-663), Aquiraz (-662), Camocim (-641), Eusébio (-517) e Sobral (-511).

"São municípios de médio porte. Você tem os três principais polos do Estado, que são Fortaleza, Juazeiro do Norte e Sobral. E são cidade que têm o mercado de trabalho com base na indústria, muito embora não tenhamos esses dados cruzados entre municípios e setores, mas a indústria em muitos desses é o carro-chefe", diz Mesquita.

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