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sábado, 7 de março de 2020

Mais da metade dos homicídios em fevereiro foram durante motim

Todos os indicadores de crimes violentos, em todas as regiões do Estado do Ceará, divulgados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), nessa sexta-feira (6), apresentaram crescimento durante o período de fevereiro de 2020, em comparação a igual mês de 2019.

Embora com um dia a mais neste ano, os números de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) - que englobam homicídios, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e latrocínios - apresentaram aumento de 178% em comparação com igual mês do ano passado; subiram de 164 para 456. Em 2019, a média era de quase seis assassinatos por dia; em 2020, o número saltou para inacreditáveis 16 mortes violentas diárias. Conforme a Secretaria, o índice "foi alavancado pelos 11 dias do mês em que parte dos policiais militares paralisaram as atividades", explica. Só neste período, conforme os dados apresentados pela Pasta, foram cometidos 289 assassinatos, cerca de 63% (mais da metade) de todos os registros do mês de fevereiro.

Análise

O coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira, enxerga os dados com "muita preocupação". "Esse aumento, de uma certa forma, demarca um período muito crítico que nós passamos e é importante porque tem uma relação muito direta com o motim", avalia.

Conforme o especialista, os números são bastante negativos porque interrompem, de forma abrupta, a redução nos CVLIs - que vinha ocorrendo durante 21 meses seguidos, embora em janeiro deste ano já tenha havido um crescimento de 35% na variável. O professor classifica o mês de fevereiro como "atípico". "Mesmo com 2,5 mil homens do Exército, as ruas não estavam tão policiadas quanto anteriormente. Nesse sentido, (a ausência da PM) propiciou que voltasse um ataque das facções criminosas", avalia.

Território

Segundo César Barreira, em um contexto de motim, três principais razões podem justificar o aumento no número de assassinatos em fevereiro deste ano. "Nesse período, as facções se sentiram mais 'à vontade', e o Comando Vermelho começou a ocupar as áreas que haviam sido perdidas para a Guardiões do Estado", explica o professor.

Além disso, ele também acrescenta que, em razão de haver menos policiais militares patrulhando as ruas do Estado, aumentou a circulação de armas de fogo e o fortalecimento do tráfico de drogas em regiões de domínio de organizações criminosas.

Exército

Embora o Exército tenha iniciado as atividades da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) durante a vigência da Operação Mandacaru, os números de homicídios não reduziram a contento, durante a atuação das Forças Armadas.

A Operação iniciou o policiamento ostensivo oficialmente em 22 de fevereiro. De lá para cá, ainda assim, o menor número diário de assassinatos, até o fim do motim, foi 18 casos. Para o sociólogo César Barreira, a primeira razão para as Forças Armadas não obterem êxito na Operação é o efetivo. Na GLO, atuaram 2,5 mil soldados, enquanto a Polícia Militar conta com 21.422 policiais militares ativos, conforme o Portal da Transparência do Governo do Estado.

"Não foi uma paralisação de 100%, não sei quantos continuaram na ativa, não sei nem se houve mas, de qualquer jeito, não estavam todos no motim", ressalta o professor, que acrescenta outro aspecto relevante para entender o trabalho das Forças Armadas no Ceará: "O Exército não está preparado, não conhece essas áreas para poder criar o policiamento".

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