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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

70% dos estudantes no Ceará defendem psicólogos na escola

"Só nesta semana, teve apresentação de teatro, prova, organização da feira científica? Deixam tudo pra gente fazer de última hora. Em todas as salas, acontece de estar tudo acumulado".

O desabafo é de uma estudante de 17 anos da rede pública estadual de ensino em Fortaleza, para quem a pressão educacional se soma à pressão familiar "para passar de ano" nesta reta final de 2019. No Ceará, 70% dos estudantes da educação básica consideram "importante" ter psicólogos na escola para atendê-los.

É o que aponta a pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção, realizada, neste ano, pela iniciativa de comunicação Porvir com 756 alunos cearenses - 97% na faixa etária de 15 a 21 anos. Além disso, 38% deles também defendem a presença de orientadores vocacionais e 24%, de assistentes sociais. "Além do professor, estudantes podem ter a necessidade de ampliar a equipe de profissionais da educação para se sentirem mais acolhidos em suas demandas e individualidades", indica o Porvir.

A pesquisa também mostrou que 25% dos jovens cearenses entrevistados gostariam de receber orientações e ajuda para descobrir suas vocações, sonhos e fazer escolhas de vida em aulas semanais específicas; 22%, em conversas durante aulas normais; e 17%, em atendimentos individuais de mentoria. Apenas 2% opinaram não achar relevante esse tipo de orientação. A discussão sobre o assunto, porém, vai ainda mais longe.

Discussão

Na última quarta-feira (27), o Congresso Nacional derrubou um veto do presidente Jair Bolsonaro sobre a garantia de atendimento aos alunos de escolas públicas por profissionais de psicologia e serviço social. Assim, volta a valer uma proposta de lei que tramita desde 2007 e foi aprovada pelos deputados em setembro, para a formação de equipes com essas categorias profissionais no atendimento a estudantes dos ensinos Fundamental e Médio.

"Se todo dia tivesse uma roda de conversa na escola, ia ser massa", explica a garota, de identidade preservada. No entanto, o desejo esbarra na falta de informação: ela não soube precisar se há psicólogos fixos na escola técnica. Recorda apenas que concludentes do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) apareceram "um dia desses" para fazer pesquisas e ajudar nas questões emocionais dos alunos.

Não deu outra. "Todo mundo chorou", garante a aluna. A sessão de exteriorização coletiva foi seguida pelo recebimento de dicas, como o controle da respiração em momentos de estresse e da descrição "de tudo que está ao nosso redor" em casos de ansiedade. "Pra ver se a gente foca nosso nervosismo em outros lugares, e não no que está realmente acontecendo". E você, se afeta com isso também? "Claro! Não sou um robô".

Na rede estadual, somente 30 psicólogos educacionais estão distribuídos nas 20 Coordenadorias Regionais de Desenvolvimento da Educação (Crede) e nas três Superintendências das Escolas Estaduais de Fortaleza (Sefor). Eles respondem por 423 mil estudantes das 728 instituições de ensino do Estado, conforme a Secretaria Estadual da Educação (Seduc). Em média, é como se cada profissional precisasse atender mais de 14 mil alunos.

De acordo com a mestra em Psicologia e psicóloga escolar Lorena Lopes, a presença dos profissionais especializados em Fortaleza é maior no âmbito privado, embora ela perceba que o setor público também está mais interessado na saúde mental de crianças e adolescentes. "Eles precisam com urgência", ressalta, lembrando que, "cada vez mais, estão aparecendo demandas emocionais" entre os jovens.

Os casos incluem ansiedade, depressão, bipolaridade e outras psicopatologias. "Enquanto o aluno tiver esse aparato emocional bem desenvolvido, a aprendizagem, que é o maior objetivo, vai se dar de modo mais tranquilo. Muitas vezes, os professores não sabem o que fazer sem orientação. Fazemos uma escuta qualificada para minimizar angústias e permitir um andar mais harmonioso", avalia Lorena.

Suporte

A Secretaria da Educação, em nota, informou que os psicólogos dão suporte às equipes técnicas das escolas em frentes pedagógicas que reforçam o desenvolvimento das competências socioemocionais, como "autogestão, amabilidade, engajamento com o outro, resiliência emocional e abertura ao novo". Eles também ajudam a equipe escolar nos encaminhamentos de estudantes à rede de apoio psicossocial, "quando necessário".

Ainda conforme a Seduc, foi lançada, no ano passado, a Política de Desenvolvimento de Competências Socioemocionais para a rede estadual. Nos currículos das escolas, houve a inclusão desse conteúdo para estimular "o crescimento pessoal dos estudantes, a construção de projetos de vida, bem como a preparação para a vida acadêmica e profissional". Ao todo, nove iniciativas compõem o conjunto de ações desta política.

A Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza (SME) foi procurada pela reportagem do Sistema Verdes Mares sobre a quantidade de psicólogos no organograma da Pasta e como funciona o atendimento aos estudantes da rede pública de ensino, mas não enviou retorno até o fechamento desta edição.

Segundo a psicóloga Lorena Lopes, para fornecer apoio, é "imprescindível" saber quais são os desejos e os projetos de vida da juventude. Na escola, o trabalho é mais coletivo, com rodas de conversa que versam sobre variados assuntos - como família, sexualidade, bullying e uso de drogas - e focam na prevenção de problemas. "Isso não nos impede de dar atenção a quem porventura necessitar de um apoio mais específico, para fazer um trabalho mais direcionado", destaca a psicóloga.

Diário do Nordeste

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