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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Cooperativas entram em decadência no Sul do Ceará

Galpões abandonados, maquinário sucateado e o fim de um ciclo de intensa atividade agropecuária nas décadas de 1970 a 1990 marcam a história do cooperativismo no Sertão do Centro-Sul do Ceará. As razões estão ligadas à crise da produção do algodão e de arroz irrigado, desorganização administrativa e falta de conscientização dos sócios sobre a importância do modelo de negócio.

Quem visita o Perímetro Irrigado Icó-Lima Campos, no Centro-Sul do Ceará, observa imensos galpões fechados, abandonados e alguns poucos alugados. Unidades de beneficiamento de algodão e arroz estão paralisadas e o maquinário já foi vendido há décadas. Implementos agrícolas estão sucateados.

O técnico do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs), em Icó, Erivan Anastácio de Souza, lamenta o quadro atual. "As cooperativas estão todas fechadas. A produção no perímetro está quase acabando por causa da crise hídrica", observou.

Para Anastácio, faltou organização dos sócios. Todas as cooperativas ficavam dentro da área do Perímetro Icó-Lima Campos, que deveria ser irrigado, no entanto, quando havia reserva de água não tinha infraestrutura de canal para transferência do recurso hídrico por gravidade.

Alexsandro Fabrício, gerente da Associação do Distrito de Irrigação Icó-Lima Campos (Adicol), disse que a situação é muito crítica. "Nas quatro cooperativas havia grande produção, máquinas colheitadeiras, unidades de beneficiamento que geram milhares de emprego e renda, mas tudo isso acabou", lamenta. "Houve problemas de dívidas, desorganização social e queda na produção que contribuíram para o quadro atual".

Toda a produção de arroz no perímetro era beneficiada nas cooperativas. Nas cidades de Cedro, Jucás e Iguatu havia ampla movimentação nas cooperativas de algodão. "O dinheiro corria solto, havia produção, geração de centenas de empregos, mas tudo isso parou", queixou-se o agricultor Francisco Marques, ex-sócio da Cooperativa Agrícola de Cedro (Cocedro).

Resistindo

De todas as unidades da região, a única que funciona parcialmente é a Cooperativa Agrícola de Iguatu (Coiguatu), fundada há 42 anos. A resistência, no entanto, só é viabilizada por meio de prestação de serviço de aluguel de máquinas para preparo de terra.

A Coiguatu negociou dívida no valor de R$ 15 milhões e, para pagá-la, vendeu a usina de beneficiamento de arroz. O quadro de sócio que chegou a ser de três mil, hoje é apenas de 200. "Estamos escapando com aluguel de máquinas para a produção agrícola, mas infelizmente a crise nos impede de novas atividades no momento", disse o diretor financeiro Renato José de Lucena.

Dependência

As cooperativas são apontadas como modelo de negócio para o futuro, mas por que no sertão cearense não deram certo nas unidades voltadas para a produção agropecuária?

O presidente do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado do Ceará, João Nicédio Nogueira, analisa que a monocultura - nos ciclos do algodão e depois do arroz - criou uma dependência da atividade. "Não houve diversificação e quando as crises vieram, os negócios tornaram-se inviáveis", disse.

Nicédio Nogueira cita como exemplo a cooperativa de Senador Pompeu que conseguiu buscar sobrevivência em outras atividades produtivas. "Sem produção e sem participação consciente e efetiva dos sócios não há como uma cooperativa sobreviver", observou Nogueira.

Uma das vantagens apontadas para o modelo do cooperativismo é a queda no valor de compra de produtos. A venda da produção, em grande quantidade, também beneficia os associados por conseguirem preços mais atrativos.

Desta forma, a cooperativa permite agregar valor ao produto e ter escala de venda para indústria e comércio.

Honório Barbosa/Diário do Nordeste

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