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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Poetas em SP preservam e renovam a literatura de cordel, novo patrimônio cultura do Brasil. Moreira de Acopiara um dos grandes representantes

O casal de baianos Marco Haurélio e Lucélia cresceu ouvindo histórias de cordel e hoje se dedica à arte em São Paulo, onde mora
Foi no sertão baiano, ainda na infância, que o poeta, professor e pesquisador Marco Haurélio, 44, teve os primeiros contatos com o cordel, literatura que acaba de ganhar um reconhecimento importante: virou patrimônio cultural do Brasil, em 19 de setembro.

“Era a minha avó Luzia quem contava as histórias escritas nos folhetos”, lembra. Arriscando escrever versos desde os seis anos, foi aos 13 anos que ele organizou o seu primeiro cordel: “O Herói da Montanha Negra.”

Não parou mais. Desde 2005, vive com a família em São Paulo, e é um dos principais representantes dessa literatura aqui. Moreira de Acopiara, Pedro Monteiro e Cleusa Santo são alguns dos outros poetas que mantêm e renovam a cultura na cidade.

Muitos deles têm histórias semelhantes à de Haurélio: são nordestinos ou descendentes e cresceram escutando a poesia cantada por seus pais, avós e bisavós.

Para Haurélio, o tombamento do cordel pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) é uma ação importante para preservar o gênero, que, apesar de algumas dificuldades, vem se fortalecendo ao longo dos anos. “O cordel já passou por todas as crises. Quando o rádio chegou, diziam que ele ia morrer, mas ele sobreviveu. Depois veio a TV, e ele se manteve. Agora, com a internet, os cordelistas perceberam que ela pode ser uma aliada, uma ferramenta de divulgação”, afirma.

É a opinião do professor Paulo Teixeira Iumatti, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (Universidade de São Paulo). “O tombamento dá sustentação para valorizar o cordel e até para que ele possa ser usado como ferramenta de educação”, afirma.

Trazida pela colonização portuguesa no século 19, a literatura de cordel se expandiu no Nordeste, mas, com a migração nordestina para São Paulo, tornou-se forte também na capital paulista. “Atinge hoje um público mais amplo e diversificado”, salienta.

MÉTRICA E RIMA

Para o professor Paulo Iumatti, do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), apesar do preconceito que ainda existe em relação ao cordel, ele vem ganhando espaço, porque tem linguagem e estética próprias. “E os cordelistas são conscientes disso e do valor do seu trabalho”, diz.

É também observada uma mudança no perfil dos poetas. Se em sua origem eram pessoas mais humildes, sem educação formal, hoje muitos fizeram faculdade e são pesquisadores do assunto.

Não é simples fazer um cordel, que possui normas de métrica e rima rígida. A mais popular é a sextilha, composta de seis versos de sete sílabas. No tema, o folheto tem duas características principais: fala sobre mitos e histórias fantásticas ou das notícias atuais, como um jornal popular.

XILOGRAVURA

A xilogravura (técnica de fazer gravuras em relevo sobre madeira) é uma das principais artes associadas à literatura de cordel. Em geral, as estampas resultantes da técnica são usadas para ilustrar os folhetos das histórias.

A baiana Lucélia Borges Pardim, 37 anos, cresceu ouvindo os cordéis contados pelo seu bisavô. Quando ela estava aprendendo a ler e escrever, ele pediu que ela passasse a ler os folhetos. “O cordel exige um ritmo da leitura, o que me ajudou a desenvolver.”

Lucélia virou a leitora/cantadora de cordel oficial do local onde morava. Hoje, ela vive em São Paulo, e é casada com o poeta Marco Haurélio. Não virou cordelista, mas é contadora de histórias e desde 2016 investe também na xilogravura. “É uma arte linda que requer dedicação.”

CONTRA PRECONCEITOS

Paulista, mulher e escritora de cordel infantil. A poeta Cleusa Santo, 64 anos, conta que não foi fácil lidar com o preconceito para seguir na literatura de cordel. “Mas eu segui porque sou louca e porque acredito muito na força da poesia e no seu poder de transformação”, diz.

Segundo ela, ainda hoje há poucas mulheres cordelistas. “É um universo muito masculino”, afirma. O fato de ter nascido no interior de São Paulo —a maioria dos poetas são nordestinos— e preferir falar para crianças em vez de falar de temas atuais, de política ou sacanagem, assuntos mais comuns no cordel, não ajudou. Mas Cleusa estava decidida. “Eu iria viver disso”, afirma.

A resolução foi tomada há dez anos, quando atuava como depiladora, mas se apaixonou pela literatura ao fazer um curso na Casa das Rosas. “O cordel tem esse encanto. Eu sempre digo que só existem dois tipos de pessoa: aquela que ama e aquela que não o conhece. Não existe alguém que passa pelo cordel e não se apaixona.”

E as histórias em folhetos fizeram uma verdadeira revolução na vida de Cleusa. Até então, aos 54 anos, ela não tinha terminado o ensino fundamental. Depois de conhecer a poesia, decidiu voltar para a escola, concluiu o ensino médio, fez faculdade de letras e pós-graduação em contação de histórias.

Cleusa conta que fez questão de estudar para provar que o cordel não é uma literatura menor. Isso porque os cordelistas afirmam que há preconceito pela sua origem popular e por vir da tradição oral. “Quis deixar claro que essa joia chamada cordel não é fácil.” Cleusa hoje tem 13 livretos em cordel publicados e faz trabalhos em escolas e com idosos.

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