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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Maioria das mortes no Ceará é de pessoas sem escolaridade

Inerente ao contexto brasileiro, a desigualdade redunda em carências em setores relevantes da sociedade, como a saúde. No Ceará, dados da plataforma Integra SUS - do Governo do Estado - revelam que quanto menor o grau de escolaridade, maior é o índice de mortalidade. Em 2019, dos 48.749 óbitos registrados, de janeiro até meados de dezembro, 14.749 foram de pessoas sem qualquer formação estudantil, o equivalente a 30,25% do total.

A segunda maior incidência foi entre pessoas que possuíam de um a três anos de estudo. Ao todo, 11.923 (24,46%) morreram nesse período, de acordo com o levantamento. Apenas 3,37% (1.643) das mortes registradas, no entanto, atingiram indivíduos com 12 anos ou mais de escolaridade.

As doenças do aparelho circulatório - como o infarto e o Acidente Vascular Cerebral (AVC) - lideraram o ranking das cinco principais causas de mortalidade no Estado em 2019, com 12.711 óbitos.

Na sequência, estão as neoplasias (7.980), doenças do aparelho respiratório (6.250), as causas externas de mortalidade e morbidade, que incluem acidentes de trânsito, homicídios e suicídios (5.247), seguidas pelas doenças do aparelho digestivo (2.377), como as diarreias.

O cenário se mantém quando analisados os últimos quatro anos no Ceará, ainda de acordo com o Integra SUS. Em 2016, o grupo que mais morreu durante o período de 12 meses também foi o de pessoas com escolaridade nula, o equivalente a 28,45% dos 55.478 óbitos registrados.

O levantamento mostra, também, que no recorte por raça/cor no Estado, a população autodeclarada parda é a que mais morre. Neste ano, o número de óbitos chegou a 33.438, seguido da branca, com 11.985, e da preta, com 1.421 óbitos.

Informação

Segundo explica a professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), Magda de Almeida, quanto menor o índice de escolaridade, menor o acesso à leitura e, por consequência, o acesso à informação e o entendimento do que é importante para a manutenção da saúde.

“Informações que são superimportantes para o reconhecimento precoce dos sintomas, por exemplo, dos sinais de gravidade, e isso dificulta quando a pessoa não tem escolaridade. A pessoa acaba chegando a estágios mais avançados da doença. Existe, ainda, a dificuldade de adesão ao tratamento. A pessoa não entende e não consegue seguir as orientações escritas, e o fato de não conseguir compreender alguns termos e explicações, o que dificulta o diálogo”, afirma.

Nesse contexto, acrescenta a especialista, a formação dos profissionais de saúde é fundamental para saber identificar essas limitações. “Quando o profissional não é preparado para isso, muitas vezes ele trata aquele adulto como alguém que tem um conhecimento, um background que ele nem sempre tem e acaba não repassando as informações de uma maneira para ele ter um entendimento melhor. Você dizer para um paciente analfabeto que ele tem diabetes e ele nem vai saber o que é isso”, pontua a professora.

Atrelado a isso, ainda segundo a professora Magda de Almeida, está a dificuldade de entendimento quanto aos próprios direitos como cidadão, no que diz respeito à busca pelos serviços de saúde pública.

“Existe também um contexto cultural em que essas pessoas procuram mais setores informais de saúde e esses setores possuem uma outra lógica de tratamento e alguns sinais de gravidade acabam não sendo reconhecidos em um tempo mais oportuno”, pontua.

Vulnerabilidade social

A falta ou a baixa escolaridade, na visão da mestre em Saúde da Família pela UFC, Talita Carneiro de Carvalho, resulta num contexto de vulnerabilidade social em que muitas pessoas, com baixo rendimento, não têm acesso a saneamento básico, moradia de qualidade, alimentação adequada, além de educação para os filhos. Para a especialista, são aspectos diretamente ligados à promoção da saúde.
Barreiras

Dessa forma, sobram barreiras sociais, organizacionais e de acesso físico, principalmente quando se trata das zonas rurais. “Os serviços de saúde estão para tratar as doenças, mas essas pessoas já têm esse contexto que favorece o aparecimento delas. Eles não têm um contexto promotor de saúde e, sim, um que destrói, e além do mais, não têm acesso aos serviços de saúde quando estão doentes”, avalia.

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